Um filme Intenso - Ten, de Kiarostami.
Estamos acostumados(as) com o ritmo forte, intenso, fervoroso dos filmes, com suas sequências rápidas, planos curtos, médios e longos, contraplongées, plongées, movimentos externos e internos, zooms, travellings, diálogos com campo e contracampo, trilha sonora, imagens com planos abertos, fechados e mais uma infinitude de técnicas cinematográficas que tornam o cinema uma arte cheia de significados. Muito disso não é visto em Ten, de Kiarostami. O que se vê é um filme simples, descomposto de várias técnicas, mas que nem por isso se torna ingênuo.
As câmeras parecem coladas no carro, elas são adaptadas ao painel deste. E se tornam peça tão real, tão parte do filme, que se fosse por algumas pessoas, "figurantes" que passam pelo carro e olham descaradamente para elas, poderiam passar como uma câmera escondida como a dos programas de humor da televisão. Quem narra a história é "a câmera", ela observa. "A câmera" está solitária naquele espaço, no painel do carro, parece se dirigir sozinha. Sendo assim, nos tornamos espectadores solitários com nossas especulações, nossos incômodos, sentimentos, lembranças, medos. A motorista lembra uma taxista, posto que ela interage com seu filho, Amin, e com mais 5 outras mulheres; sua irmã, uma senhora, que pega carona, uma prostituta e mais duas mulheres desiludidas amorosamente. Parece quem em cada parte do filme temos um "conto'' que aborda o mesmo tema: a condição da mulher em uma sociedade machista.
É uma história narrada em dez capítulos. Digo história porque o dicionário define fábula como uma composição que tem o intuito de colocar uma moral. O filme de Kiarostami não dispõe um final, pois acredito que para passar uma moral é necessário um fim. O filme se passa todo dentro de um carro guiado por uma mulher. O primeiro capítulo situa a câmera fixada em um close-up de Amin. São mais de 16 minutos cravados na mesma imagem, no garoto que fala, grita, teima, se queixa, se revolta, discute com a mãe, que é vista apenas no final do capítulo. O filme termina com uma parte repetida do antepenúltimo segmento. Pessoalmente, classifico a nona parte como a mais emocionante. Choro ao ver a mulher que se lamenta pelo noivo que não quer casar. Ela raspa a cabeça para deixar de chorar pelo namorado. Seu relato é muito humano, assim como a totalidade do filme; acabamos por nos perguntar se aquelas pessoas são atores e atrizes, se aquele menino é realmente filho da motorista.
O interessante também é que a câmera não exibe o rosto da prostituta, apenas ouvimos sua voz e imaginamos como seria aquela mulher que fala tão abertamente e coloca seu relato de maneira tão confiante. O que a câmera faz é, com uma subjetiva da motorista, apenas mostrar quando ela entra no carro de um cliente. Apesar disso, é uma imagem triste, que talvez reflita sobre as atitudes que tomamos em nosso dia-a-dia, ou o que realmente vale a pena. Em determinada cena, a motorista comenta que não encontrou sua paz de espírito, apesar de lutar por uma vida melhor, usar argumentos falsos para conseguir a separação em um território de cultura ultrapassada. O último capítulo do filme repete o antepenúltimo, assim como a vida também é repetitiva. Dessa maneira, todos os dias, Amin vai entrar no carro de sua mãe e dizer que não quer ir para casa, que ela está errada por ter se separado, assim como sua amiga vai chorar por seu amor perdido, irão continuar sendo mulheres, mesmo com todas as discriminações sofridas. Desse modo, a vida continua, seja em uma imagem de uma mulher no carro esperando sua irmã, distraída, que mexe em sua boca, se abana; ou na imagem da motorista, indignada com a atitude de outro motorista ao atentar estacionar. A câmera de Kiarostami em Ten é a rotina, é isso que ela flagra: a vida como ela é.
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