Assistindo ao filme O Eclipse, de Antonioni, talvez se possa descrevê-lo como incógnito. O diretor tem um estilo singular, lento, estagnado. Trata-se de um estilo totalmente diferente daqueles com os quais tinha tido contato, todavia me pareceu interessante, tanto que apreciei muito. Fez-me pensar, principalmente, em como desperdiçamos nossos dias, quando nos damos conta que as horas passam rápido demais e não temos tempo para nada. Somos apressados, corriqueiros. Não damos valor e não percebemos coisas simples, como, por exemplo, uma poça, reflexos, o céu, ou simplesmente as pessoas que passam. Justo porque consideramos coisas banais.
No início do filme, temos o casal Riccardo e Vittoria, e o silêncio por mais de 4 minutos. Ela parece angustiada; ele a observa, espera a sua reação. Ela também observa, mas não a ele, olha para o seu redor, abre a cortina, olha para fora da janela, fica em posição fetal como se quisesse renascer. Vemos seus reflexos que parecem metáforas do que Vittoria sente, sua prisão, isolamento, sensação de singularidade, sua subjetividade, como única no espaço.
O cenário do filme é quase todo parado, causando uma sensação de marasmo. No início do filme, o ventilador parece quebrar um pouco isso, causando um tipo de estranhamento, quando mexe os cabelos de Vittoria parece provocar um tipo de entorpecimento. Este objeto também parece um personagem em cena. Antonioni tenta nos enganar quando nos faz intuir que o barulho do barbeador é o do ventilador. O ventilador é um personagem entre Ricardo e Vittória, como um intruso. A concepção de Vittória se assemelha ao se misturar as telas abstratas do apartamento de Riccardo. Uma percepção extraviada. Riccardo ainda está preso a Vittoria, e corre atrás dela. Quando Vittoria pergunta o porquê dele a acompanhar, ele responde que sempre a acompanhou. O olhar dela diz tudo, talvez Riccardo tenha sido um companheiro ausente.
Esse tipo de “Antonionismo”, em uma tentativa de intitular o estilo do diretor, mostra uma forma diferente de ver o mundo. Difícil é não perceber como seus planos são geométricos, em quase todos se observa alguma figura como: barras, retas, círculos, pontos, quadrados; formas significativas como, por exemplo, as barras que prendem Riccardo quando este está procurando Vittória no apartamento dela; vemos Riccardo por entre as grades da janela de Vittória. Ou quando Piero e outro homem entram na Bolsa de Valores, a câmera também os focam por detrás de grades, revelando assim, a prisão destes na sociedade.
O filme também é tácito, silencioso, mas nem por isso sem expressão. Visto pela personagem Vittória, que tudo percebe, sente, intui. Compreende a sociedade tão apressada. Não se sente feliz, se considera uma pessoa ruim, talvez por entender que é diferente.
A câmera de Antonioni pega o que não faz parte do filme, como o garotinho que corre e passa na frente do casal, ou no primeiro plano do filme, que foca um abajur, livros e o cotovelo de Riccardo, que só percebemos depois quando a sequência segue até o personagem. A câmera de Antonioni é uma câmera que também percebe o que está ao seu redor, é perceptiva, indutiva, curiosa, vagarosa, detalhada.
Na Bolsa de Valores, no momento em que todos fazem um minuto de silêncio, novamente o ventilador é o único que funciona em cena. “Um minuto custa milhões”, o dinheiro vale mais do que tudo! Ambiente onde as pessoas somente ficam felizes se ganham dinheiro. Antonioni utiliza a Bolsa como um local perfeito para expressar essa desordem, pressa, desespero, gritaria, em que o homem se tornou. Vittória a descreve como um ringue. E é exatamente isso, um local de brigas, onde todos tentam tirar proveito próprio, passar por cima dos outros. A mãe (cheia de olheiras) de Vittória não a escuta, é viciada em jogo, infeliz, incapaz de considerar sua filha. Uma mãe muito distante, que inviabiliza tudo que está ao seu redor, a não ser o jogo.
Ao contrário de sua mãe, Vittória, sente, percebe, observa tudo a sua volta, as pessoas que conversam; o céu, enfim, tudo lhe é perceptível. Segue o homem que perdeu milhões, que toma um calmante e desenha florzinhas. Ela tenta o entender. Talvez tente interpretar as pessoas. Ela mesma diz que Piero nunca fica quieto. Este é um homem irrequieto, materialista, muito diferente de Vittória.
A protagonista se sente mal com as pessoas que se divertem assistindo o bêbado morto. Como se as pessoas não tivessem mais comoção, sentimento por outras pessoas, o mundo se tornou só e egoísta, preto-e-branco como o filme de Antonioni. Enquanto que, quem fica na bolsa não vê nada, só pensa em dinheiro. São pessoas vazias.
Por fim, Vittoria fica com Piero? Será que os últimos planos que focam Vittória por detrás das grades, revelam que sim, que se prende novamente? Mas quem sabe não, se tem a possibilidade de realmente ter se prendido a essa realidade, uma maneira que parece mais fácil de se viver.
No final, os planos se encaixam como documentários, em um ritmo que dita a vida que passa. O mundo está ali, fragmentado, vazio. Antonioni registra muitas coisas, entre elas, formigas minúsculas que fazem o seu papel, o vento, as árvores, o ônibus, as pessoas que esperam os ônibus, a loira que nos engana por acharmos que se trata de Vittoria, mas não é; é apenas uma mulher normal, não a “heroína” do filme.
E por que será que denomina seu filme com o título O eclipse? Será que para definir as pessoas que, para observar um eclipse precisam de algum mecanismo, tendo apenas uma projeção indireta? A humanidade de hoje (se de 1962 já era assim, imagina hoje) não consegue enxergar nada diretamente. Vê tudo de soslaio. Não se fica mais na varanda ou na janela vendo a vida passar, não há tempo, afinal o dia não tem mais 24 horas!
Ou seria para colocar o mundo de hoje como um total eclipse, cuja luz do sol e noite podem ser reproduzidas por luz artificial? E prédios cada vez mais gigantescos escondem a luz natural.
Muitas ruas, curvas, prédios, círculos, mas ao mesmo tempo, o mundo está cada vez mais vazio.